#Foi só o tempo que errou

28/07/2010 1 Lembretes .
“Sabe, liguei o rádio do carro naquela estação e pensei: a próxima música que tocar vai para nós”, ela disse. Tocou uma música que dizia: “Dos nossos planos é que tenho mais saudade. Onde está você agora além de aqui dentro de mim? Agimos certo sem querer, foi só o tempo que errou. Vai ser difícil sem você aqui porque você está comigo o tempo todo.”

Os olhos dela estavam úmidos, ela falava com sofreguidão, com intensidade, e isso não era comum nela. Quieta, discreta, poucas palavras; a pressa com que ela falava parecia indicar que sabia que já não tinham tanto tempo assim para conversas daquela natureza. Era a última oportunidade talvez para olharem para trás e falar do que representaram um para o outro, ou uma das últimas. Há tempo para chegar, e há tempo para se parti, está escrito no Eclesiastes, e para eles tinha chegado à hora de partir; ele não conhecia aquela musica. O repertório musical dos dois era diferentes, e num determinado momento deixaram de compartilhar as canções que agradavam a um e outro. Ele foi procurar depois a música da qual ela falara; Legião urbana - Vento no litoral, “sei que faço isso para esquecer, eu deixo a onda me acertar, e o vento vai levando tudo embora”.

- Recebi um e-mail do advogado - ele disse, - ele escreveu que tinha sido um final feliz. Final feliz, eu ri ao ler. Final feliz, antigamente final feliz era bem, sei lá, bem não era isso; não o que ele quis dizer, que minha proposta de partilha tinha sido aceita, e que estávamos prontos para ir ao juiz selar a separação.

- Você, - ela disse - você preencheu todos os meus céus, olhos de estrelas nunca mais, nunca mais; você tinha olhos de estrela, no meu quarto moça você tinha olhos de estrela.

‘’Rubem Braga – Quarto de moça’’ era um dos textos preferidos dele; onde ela narrava o encontro com uma mulher que ganhara o mundo, e com isso dinheiro, poder e celebridades, mais perdera seu quarto de moça humilde no qual sonhara tanto. Rubem dizia que, se pudesse lhe dar um presente, reconstruiria aquele quarto para ela, e ele se lembrava do quarto de moça da mulher com a qual tivera, nas palavras do advogado, um final feliz.

- Eu não consegui fazer você feliz, e sinto fracassada por isso, e isso me dói tanto, tanto - ela disse.

- Eu também não consegui te fazer feliz, mas acho que significou uma vitória no fracasso. Derrotas podem ser esplêndidas, a nossa acho que foi não tínhamos a essência um do outro; a tristeza nos uniu, não só ela, é verdade. O sexo era bom, e como era, mas a tristeza foi talvez a nossa conexão mais forte, não percebemos o que tínhamos de mais genuíno é um triunfo no fracasso.

- Seus olhos, seus olhos são tão tristes, me sinto culpada. Sempre me sinto culpada por você, você sabe; e se eu tivesse feito...


- Nós fizemos o que tínhamos de fazer, nós lutamos, nós guerreamos, os dois, não só eu você também! Mesmo quando caídos, nós combatemos de joelhos pelo nosso amor, por nós dois, e apenas aconteceu que fomos derrotados. Li num livrinho que você me deu que o que não importava não é o resultado, mas a luta, a intenção, a entrega, e então nós, sei lá, nós tentamos, e então está tudo bem - o livrinho a qual ele se referia era, o Gita.

- Agimos certo sem querer - ela cantou - foi só o tempo que errou.

- Você trouxe uma música, eu trago outra ‘Desenhos no jornal’.

- Ah, essa música não; é tão triste!

- A arte é triste, uma vez escrevi isso, a alegria não produz nada que preste na arte; gosto daquele verso, o final: ‘Um rosto distante se apagando no meio da multidão’.

E então, eles se despediram, e eram um para o outro, e para sempre um rosto distante se apagando no meio da multidão.

1 Lembretes .:

  • Gustavo disse...

    Bacana o blog! Se colocar uma foto sua vai ficar melhor ainda. Isso se for a mesma pessoa da foto que está no orkut. rsrs
    Bjs sucesso com o blog

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